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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

RÉQUIEM PARA AMIGA





A primavera se anunciava com o céu claro, o sol ardente e as flores se abrindo. Numa manhã assim, sem aviso prévio, uma alma de luz voltou para a Casa do Pai.

A luz do dia era pequena comparada a sua própria luz. Por onde passava, espalhava-a, derramando paz.

Desde criança, lutou bravamente contra uma doença auto-imune que ameaçou sua vida tantas vezes. Mas, ela não era de se deixar abater facilmente. Seu bom-humor, sua força não davam tréguas à doença.

Ela era aquela mulher forte de que fala a Bíblia. Entregue, dia e noite, ao trabalho, suas mãos de abençoada habilidade criavam verdadeiras obras de arte.

Era calada. Ouvia mais do que falava. Confidente e amiga de tantos jovens que seu velório vestiu-se da beleza da juventude, qual bando de passarinhos chilreando num canto melancólico. Este foi o maior enfeite de sua despedida, pois ela, na sua simplicidade, já havia pedido um velório sem coroas e adereços.

Ela parecia se apoiar nas palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Nada te perturbe, nada te assuste. Tudo passa. Deus é imutável. A paciência tudo alcança. A quem possui Deus, nada falta. Deus é plenitude”.

Só nós, que privávamos de sua intimidade, conhecemos suas bravas batalhas: as cirurgias, a hemodiálise, os transplantes, o caminho espinhoso sem o apoio do companheiro, a criação do filho, que ela tanto amou e desejou...

Irmanadas na luta pela mesma doença auto-imune, costumávamos dizer: “Somos duras na queda. Tiramos tudo de letra”. Mas, ela sofreu muito mais do que eu, pois, por uma benção, que nem sei se mereço, a doença, até agora, não me atacou os rins.

E, depois de problemas tão graves, dois transplantes, quando se livrara finalmente da hemodiálise, numa cirurgia simples de hérnia, quando nenhum de seus amigos se preocupou porque sabíamos que isso para ela não era nada, sua alma resolveu voar rumo ao infinito, deixando-nos órfãos.

Pegou-nos a todos de surpresa. Amante da vida como era, sei que não gostaria de nos ver tristes. Mas é que a ausência de um ser amado dói muito. Por mais que tenhamos uma visão esperançosa da morte, por mais que pensemos que estamos preparados. A ausência é sempre dolorosa.

Não ver mais aquela fisionomia de paz, não assistir suas mãos habilidosas criar novas belezas, não ouvir sua voz paciente... tudo isso é por demais doloroso!

Gostaria de ter convivido mais com ela, aprendido, de verdade, a lição suprema da humildade, da paciência, da solidariedade, da resignação.

Nunca ouvi de sua boca uma única reclamação. Sempre que a gente perguntasse, a resposta era sempre a mesma: “Tudo ótimo”. Mesmo quando seu irmão caçula se foi, de morte súbita e prematura, ela não se queixou. Sua dor foi calada.

Mãe de tantos... Um pouco mãe de minha própria filha, a chamada Dinda de minha neta, por ser madrinha de seu melhor amiguinho... Ah, Nádia, o mundo pode não ter tomado conhecimento de sua bela jornada. Mas, para mim e para todos que a conheceram, você era um mundo de ternura. Para todos nós sua partida foi triste e haveremos de sentir muito a sua falta.

Pessoas vazias, cheias do próprio ego, vaidade e orgulho, tantas vezes recebem homenagens grandiosas. Mas, pessoas grandes como você passam despercebidas para aqueles que estão envolvidos apenas com seus objetivos menores de suas vidas sem grandeza alguma.

Depois de tê-la conhecido e convivido com você por mais de trinta anos, mais cresce a minha convicção de que pessoas “cheias de Deus”, as pessoas santas são sempre silenciosas e humildes.

Esteja em paz, minha amiga e me perdoe se não me doei mais a você!

Aqui continuamos nós na espera do reencontro. E como tão bem disse São João da Cruz: ”O amor não cansa e nem se cansa”. E você era só amor.

+ Minha amiga se foi em 19 de Setembro de 2009.

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