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quarta-feira, 14 de abril de 2010

OS BARES NUNCA FECHAM...


“Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar”

Vinicius de Moraes


Bares existem em qualquer lugar do planeta. Alguns luxuosos, cheios de beleza e arte, outros modestos, e mesmo “copos sujos”. Neles, de qualquer forma, em grupo ou sós, celebra-se a Vida, afogam-se as mágoas, as tristezas, a saudade, um amor não correspondido, brinda-se aos que se foram...
Alguns enquanto bebem escrevem poemas nos guardanapos, viajando por seu interior e contemplando e registrando o que ali acontece.
Karla Celene Campos, poetisa de boa cepa, já visitou um bocado deles. Do Brejo das Almas, com seus bares tão peculiares, assim como os de Montes Claros – em especial a extinta e saudosa “Cachaçaria do Durães”, nosso ponto de encontro dominical – os bares da Estrada Real, Diamantina, São Gonçalo, Milho Verde, etc. até os de Espanha e Portugal.
E nesta sua jornada, em estado de deslumbramento com a vida e as gentes, ela vai fazendo suas anotações em guardanapos. E destas anotações nasceu uma grande, fascinante e bem estruturada obra: “Os Bares nunca Fecham...”.
Amo Karla. Não apenas porque é minha prima, mas, acima de tudo, por sua grandeza, com um riquíssimo universo interior, a encarnação da Alegria, do Entusiasmo, da Paixão.
Amo as pessoas que vivem com paixão, sempre repito isto. Aquelas que se entregam intensamente, que saboreiam cada minuto como se fosse o último. Pessoas que só sabem ver a Beleza da vida, de braços e coração abertos. Pessoas que desconhecem a inveja, sentimento menor que toma conta daqueles que não têm asas.
Sem dúvida alguma, e sei que todos haverão de concordar comigo, Karla é uma grande estrela. Quando ela nos mira, seus olhos brilham. Ela está sempre em estado de deslumbramento, aquele estado de êxtase que confessa Fernando Pessoa gostaria de estar, “como se acabara de nascer”.
Ela é poeta, contadora de “causos”, filósofa, bailarina, atriz. Deus a fez completa, em minha visão. E, além do talento, Ele lhe deu um companheiro de verdade e filhos maravilhosos.
Tudo que ela faz o faz com beleza e consistência. Sua formação intelectual é sólida. Assim, ela pode navegar, corajosamente, por todos os mares, que jamais perderá o rumo. Ela sabe que sempre haverá um cais à sua espera, com um bar pelas cercanias, onde, sozinha ou em grupo, levantará o copo, brindando à vida, o amor, a saudade, a amizade e a todos os artistas de todas as épocas e lugares.
Ela sempre busca o néctar das melhores flores. Desta forma, em tudo que escreve percebemos o universo de múltiplos olhares, autores que a marcaram em toda a sua trajetória.
Karla ama os livros, assim como eu. Vivemos mergulhadas neles e amamos sentir-lhes a textura, a tessitura, o cheiro de coisa antiga e guardada ou o de tinta fresca. Entristeço-me muito quando alguém me diz que não lê porque tem preguiça de fazê-lo. Sinto piedade destes. Nunca haverão de “navegar por mares nunca dantes navegados” e seu universo será sempre restrito. Aliás, Carlos Ruiz Zafón, autor espanhol de uma das melhores obras que já tive o privilégio de ler, “A Sombra do Vento”, comenta, com muita propriedade: “ (...) a arte de ler está morrendo muito aos poucos, (...) é um ritual íntimo, (...) um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós (...), colocamos nossa mente e alma na leitura, e (...) esses bens estão cada dia mais escassos”. A verdade é que as pessoas não lêem porque são pobres interiormente.
Nélida Pinõn, orgulho de nossa literatura, a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, confessou à Revista Isto É que “considera empobrecido nosso cenário cultural pela massificação e pela deficiente formação educacional do brasileiro. (...) É um país onde a leitura é uma raridade”. Quem não lê, pouco tem a oferecer em termos literários. Como emocionar e alavancar o leitor se não se faz uma única reflexão?
Karla, entretanto, com sua riqueza interior, nos move e comove. Mesmo quando escreve prosa ela não abandona o seu estilo poético, com suas figuras de linguagem. Vejamos: “ o negror de um céu órfão de estrelas”, “a imensidão oceânica se ofereceu sem pudor”, “o sol fingia que era verão”, “ mastigou a maciez de cada sílaba, bebeu a doçura do conjunto de suas letras, aspirou o perfume que parecia saltar do nome soletrado”, “a chuva executava um balé enlouquecido”, “sei o cheiro do tempo que passa, da página que é virada, da vida que se vai”... “Desavergonhadamente, sem ao menos um fiapo de nuvem a ocultar a sua nudez, sem nenhum pudor, a Lua se entregava feminina aos olhares e aos telhados, exageradamente, artisticamente, platonicamente - acessível aos olhos e aos corações, deixando, entretanto, em cada boca, o gosto acre-doce dos amores impossíveis, de amores que não estão ao alcance das mãos”. E por aí ela vai nos encantando.
Durante toda a narrativa ela também filosofa e vê o aspecto social e político da nossa era. Mergulhemos, mais uma vez, em suas palavras: “Comum aos mortais é a dor de viver. Algumas pessoas, no entanto, tomam providências para que a convivência com tal dor não se transforme num vazio existencial inútil.”; “A mocidade e os mistérios. O futuro incógnito, o presente de prazeres e angústias. Um tesão enorme pela vida e ao mesmo tempo um grande medo dela...”; “Inversão de valores. Pobreza espiritual. Pobreza nas conversas. Papos desinteressantes. Pobreza musical. Repararam no tipo de música que faz sucesso hoje? Música?!
Um tecnologismo desumano se apodera do deslumbrado e despreparado humano, que não está sabendo como lidar com isso. O que seria uma forma de facilitar a vida, garantir o tempo para o ócio e o prazer tornou-se mecanismo exigente que só faz roubar mais o nosso tempo. Tanta pressa, pressa tanta pra quê, se já não há tempo para o bom-humor?
Aquecimento global, violência generalizada, falta de espiritualidade, planeta doente... “Ano 2008: John, a utopia acabou”.
Karla é gente e se mostra sem pudor. Ela grita, ela sangra, ela ama, ela nos coloca um punhal no peito enquanto navegamos pela beleza de seus mares, assim como ela fala da poesia de Elthomar Santoro: “A poesia de Santoro é feita para sangrar, incomodar, doer; para nos libertar das mediocridades e mesmices (...)”. Ela se identifica com o poeta porque ela, também, por sua vez, faz o mesmo conosco.
Ah, a beleza da viagem que nos descreve, o estado de encantamento e fome em que nos põe!... Cada vez a gente tem sede de mais e mais... Não queremos que a leitura termine! É tudo muito intenso! É brasa, é carne, é gelo, é lágrima, é riso...
Karla, com sua literatura, assim como Miriam Carvalho e alguns tantos montesclarenses, nos dá orgulho da terra! Ela sempre será lembrada por seus registros cheios de encanto. Sua prosa e seus versos serão eternos, assim como daqueles que, pela vida afora, souberam nos tocar, emocionar e ajudar no processo de crescimento, no salto quântico. Ainda falando sobre ela, posso usar suas próprias palavras para mostrar a sua beleza e o esmero de sua obra, quando ela descreve o artista e o sertão: “o artista sabe que, se não há como deter o tempo, pelo menos é possível fazer com que a página virada não se perca no branco da falta de formas, da falta de cores, da falta de almas. Sabe que, através da arte, a vida não se esvai.
Misturando formas, cores e almas, o artista pinta o cenário. Teima em insistir na vegetação que insiste em vida, mesmo se chuva não há, mesmo se ajuda não vem.
Faz surgir o marrom, o cinza, a terra e a poeira na cerca de madeira, no adobe e no sapé. Faz surgir a serra azul, a terra vermelha e a fé na pequenez do homem que conta com a grandeza de Deus pra levar a vida. Pra continuar a lida. Pra abençoar os seus.
Como quem faz poema. Como quem faz canção. Compõe cenário que deixa vazar a vida dos homens de vida vazia, dos homens de luz e barro que compõem este cerrado. Que lutam pela existência, que vivem de brisa e de insistência; de resistência e sertão”.
Eu, também, Karla, ao ler esta sua mais nova obra, “preciso da mudez de bocas caladas pra poder agasalhar na alma todas estas sensações”. Você sempre será plena e por isso alcançará a plenitude em seus versos, em seus gestos, em palavras e canções.
Você ainda está no verão da vida e terá muito caminho pela frente, muito registros a serem feitos por sua pena e seu rico coração. Já eu, termino o outono e antevejo o inverno... Entretanto, meu coração desconhece esta realidade e sempre haverá de sentir que é primavera... Você tem razão, “bares têm alma, têm personalidade”. E num desses bares quaisquer de nossas vidas, estarei sempre a esperar por você para brindarmos a primavera eterna de nossas almas, aos amores perdidos, à saudade teimosa, à vida sem razão, mas, também, em sua eterna beleza.
Em seu “Os Bares nunca fecham...” você nos lembra da efemeridade de tudo e, de maneira belíssima, chama o poeta para atestar a verdade do que coloca:

“Que é a vida? Uma ilusão,
Uma sombra, uma ficção;
O maior bem é tristonho,
Porque toda a vida é sonho
E os sonhos, sonhos são.”

Calderón de la Barca

Brindemos os sonhos e vamos vivê-los enquanto vida houver! E continuemos as nossas anotações...

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