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domingo, 18 de julho de 2010

CICATRIZES NA ALMA


Falar que tudo é efêmero, que tudo que nasce morre, que a lei da vida é a mudança é cair no lugar comum. Nada disso expressa a dor de uma perda.
Tive uma tia que morreu perto de completar os cem anos. Um dia, eu, ainda uma garota, lhe disse: “Tia, deve ser tão bom viver muito, não é”? Ela me respondeu: “Qual nada, filha! Quando vivemos muito vamos perdendo as pessoas que amamos. Eu já enterrei meu marido, alguns filhos, sobrinhos, irmãos e até netos.”.
Sempre pensei muito em sua resposta, mas somente agora, ainda tão longe dos cem, que provavelmente nunca alcançarei, minha própria vida já me mostra a sabedoria de seu pensamento.
Ultimamente, venho enterrando muitas pessoas que amo! Parece até que o ritmo louco da vida que levamos faz com que encontremos os amigos e parentes somente em velórios. Enterrar uma pessoa amada é como perder um pouco de si mesmo, pois os nossos sentimentos, e tudo que aprendemos com eles, vão nos tornando as pessoas que somos.
Assim, venho deixando pelo caminho partes de meu ser. E é doloroso e difícil retomar a caminhada sem elas!
Foi-se mais uma de minhas queridas amigas... Talvez a mais alegre, de mais alto astral, cheia de vida, garra, inteligência, competência. Uma educadora que marcou a vida cultural de Montes Claros: Amélia Prates Souto.
Uma das mais brilhantes alunas que tive na faculdade, onde nos tornamos amigas sem sabermos ainda que éramos parentes. Daí por diante foi uma vida de uma bela convivência, cheia de carinho e cuidado.
Ainda há pouco, prefaciei uma obra sua, na qual ela fez questão de destacar o seu sentimento por mim.
Amiga querida, capaz de se incomodar no meio da noite com uma dor que eu estivesse sentindo. Percebia as nuances de minha voz, que demonstravam meu estado de espírito. Quando entrava em minha casa, a alegria se apoderava do ambiente com sua presença...
Venceu duros percalços em sua vida, mas tirava tudo “de letra”. Cristã fervorosa, sempre preocupada com os outros. Procurava viver no dia a dia os ensinamentos de nosso Amado Mestre.
Criou uma família maravilhosa e vencedora. Colhendo os louros de suas vitórias, depois de rodar o mundo, foi assistir à formatura de uma neta. Conversamos antes de sua partida e ela me confessou que não sabia por que tinha o coração oprimido e não queria viajar. Animei-a bastante, mostrando a importância da ocasião. E, na noite em que ela partia para a Casa do Pai Maior, eu perambulava pela casa toda, com o peito oprimido, falta de ar, achando que fosse algo físico. E, insistentemente, sua imagem me vinha à cabeça. De manhã, a notícia terrível: ela se fora...
Encontro-me ainda muito abalada para falar sobre tudo o que significou nossa grande amizade. Busco palavras, que estejam à altura de sua grandeza e de nosso sentimento mútuo. Mas a cabeça ainda está tonta, um pouco fora da realidade, com a sensação de que tudo não passa de um sonho!...
Acredito firmemente em nosso reencontro no outro plano, mas a saudade dói, dói demais...
Há algum tempo atrás, ela escreveu uma crônica em que denegria uma figura sagrada para mim: a de Dona Tiburtina, madrinha de meu pai. Eu passara toda minha vida ouvindo papai falar de sua bondade, como a de seu esposo, o Dr. João Alves.
Telefonei para ela e lhe disse: “Amelinha, estou tão triste porque você escreveu contra Dona Tiburtina, madrinha de meu pai”. Uma amizade que não fosse verdadeira poderia terminar aí, mas não. Ela me replicou, com carinho: “Perdoe-me, Maria Luiza! Enquanto você foi criada em uma família que exaltava a figura desta senhora, eu vivi momentos de angústia, na infância, percebendo o medo que se apoderava dos meus familiares, quando se pensava nela. Tudo isto é passado. Será que a nossa amizade vai acabar por causa de pessoas que nem mais existem?”.Respondi: “Claro que não! As pessoas não são obrigadas a terem os mesmos pontos de vista só porque são amigas”. E a nossa relação continuou mais forte que nunca.
Costumo dizer que Montes Claros é uma cidade sem memória. Não se cultuam as figuras de pessoas que, de uma forma ou outra, ajudaram a construir a nossa História.
Haja vista a ida de Sônia Quadros Lopes, uma das grandes lutadoras pela concretização do sonho que foi fundar uma Universidade neste remoto sertão. É verdade que a UNIMONTES decretou luto. Isto porque ainda está lá um Reitor que se lembra de nossa dura luta. E a cidade?... Quem sabe quem foi esta grande figura?
Mary e Baby Figueiredo, duas das maiores expressões da inteligência local, perderam a mãe por estes dias e eu só soube depois da Missa de sétimo dia. É verdade que, por uma série de conjunturas, encontro-me um tanto reclusa, mas a verdade é que a cidade não toma muito conhecimento destes fatos porque desconhece e não respeita estes nomes de pessoas extraordinárias.
Na UNIMONTES os alunos passam indiferentes diante de placas com nomes de figuras históricas que eles desconhecem...
Precisamos reverter este quadro e dar valor a quem tem, e venerar a figura daqueles que tanto lutaram para termos uma cidade do porte de Montes Claros atual..
Espero que a cidade não se esqueça deste grande nome: Amélia Prates Souto! Não porque foi minha amiga, mas porque foi uma extraordinária educadora e lutadora por nossa cultura.
É, minha amiga, vai ser duro não tê-la mais entre nós! Mas, de uma coisa eu tenho certeza: você descansa no colo do Pai. Luz e Paz para você e obrigada, muito obrigada pelo que significou em minha vida!
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PS: Escrevi esta crônica logo depois do velório de Amelinha. A dor, entretanto, levou-me para o leito do hospital, onde estive por estes dias. E, antes que a dor minorasse, outro golpe: foi-se o meu primo, Dr. Kennedy Campos, tão jovem, tão grande médico, com tanto caminho pela frente... Meu abraço de amor e meus sentimentos sinceros à Celina e Tim, Karla, Kivane. Kildare e Vanessa. Fica a saudade e a cicatriz na alma...

Maria Luiza Silveira Teles

Um comentário:

  1. Cara professora Maria Luiza,
    Comoveu-me ler o seu desabafo nestas poucas linhas,
    Também compartilho de sua indignação, por ver mulheres tão virtuosas serem esquecidas ou pelo menos não serem lembradas com devido mérito.
    Fui agraciada por Deus e pelo destino pertencendo à última turma de pedagogia da UNIMONTES privilegiada por ter no corpo docente a Professora Baby Figueiredo, depois desta ela se afastou aposentando posteriormente.
    Foi uma grande honra tê-la como mestre.
    Estou indignada, pela falta de memória e justiça em nossa cidade, pois estou desenvolvendo um estudo sobre a participação da mulher na UNIMONTES e me surpreendi com a dificuldade de encontrar documentos que faz jus ao esforço de grandes mulheres como Isabel Rebello de Paula, Maria Dalva Dias de Paulo, Baby Figueiredo Sobreira, Mary Figueiredo e Maria Florinda Ramos Marques e tantas outras como Amelinha.
    Parabéns por sua merecida crônica.

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