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sábado, 16 de outubro de 2010

DESGRUDE-SE DO APEGO




Liane Camargo de Almeida Alves

Um dos caminhos para ter paz de espírito e coração leve é abrir mão do desejo de conservar as coisas, as pessoas, as situações indefinidamente.
Aprenda como libertar-se das artimanhas do apego
- isso fará bem para você e para todos a sua volta.

Na língua portuguesa, a palavra apego tem até uma sentido positivo.
"Ele é tão apegado à família...", se diz no interior de São Paulo e Minas Gerais.
Já o contrário, o desapego, é malvisto:
"Ele é completamente desapegado, não liga para nada..."
Mas o apego, na linguagem budista e cristã, tem outro significado. É algo opressivo, que nos asfixia e aprisiona, sem mesmo termos consciência.
"Apego é o maior sinônimo de sofrimento e sua maior causa", sintetiza o filósofo indiano Krishnamurti no livro
A Mutação Interior (ed. Cultrix).

Desapegar-se, portanto, é liberar-se do apego.
É, literalmente, soltar-se do laço que nos sufoca.
Algo que traz alívio interno, paz de espírito, uma alegria que relaxa. "O problema é que não percebemos que existe o laço.
Pensamos que não podemos viver sem aquilo, que na verdade é uma grande fonte de angústia", reconhece a socióloga Fátima Souza Murtinho, de Belo Horizonte.
Como perceber se estamos apegados a algo?
"Apego é atribuir exagerada importância a um objeto, uma situação ou uma pessoa", explica a psicóloga Bel Cesar, diretora do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo.
Em outras palavras: apego não é uma manifestação de amor, mas de posse, um desejo incontrolável de conservar algo para sempre.

Tudo muda o tempo todo

"Sofremos e nos inquietamos só de pensar em nos desapegar de algo", reconhece a psicóloga.
"Ficamos dependentes, vulneráveis.
Nem percebemos que somos nós mesmos que atribuímos tantas qualidades àquilo que nos prende, exagerando sua real importância", explica Bel Cesar.
E fazemos isso o tempo todo, dizem os budistas, tanto com as pessoas a quem queremos bem como também com aquelas a quem odiamos.
É mais fácil até nos apegarmos às emoções negativas do que às boas memórias.
Podemos ficar anos remoendo algo que alguém disse e nos magoou.

As filosofias e religiões orientais reconhecem que somos uma coleção ambulante de apegos:
aos nossos hábitos, às nossas pequenas manias, ao que consideramos certo e errado, ao que achamos que somos. Simplesmente nos recusamos a mudar - até que a vida dê um jeito de nos obrigar a fazer isso.
Foi o que aconteceu com a administradora paulista Márcia Silva. Aos 27 anos, com três filhas pequenas - a menor com 9 meses -, ela teve que modificar totalmente seu estilo de vida quando o marido adoeceu.
"Deixava as crianças com os vizinhos para levá-lo ao hospital, para sessões de hemodiálise.
Aprendi a negociar as contas atrasadas.
Abdiquei da perfeição", conta.
A dificuldade da situação a suavizou por dentro e a despertou para a vida.
"Mudei muito.
Hoje interajo mais com a vida, com aquilo que se apresenta a cada momento.
Procuro estar sempre aberta para o mundo, tanto para a beleza como para o sofrimento", diz Márcia.
Ela recolhe gatinhos abandonados - mesmo que para bagunçar a arrumação da sala -, pára de reclamar de dor da perna quando vê alguém na cadeira de rodas.
"Desapegar-se é um eterno aprendizado, que dura toda a vida", admite ela.

Sentimento que cola

Todo mundo já ouviu alguém dizer:
"Sou tão desapegado, para mim nada tem valor..."
Nada mais falso.
Desapego nada tem a ver com indiferença.
"É uma ilusão acreditar que o desapego é apenas uma renúncia aos bens materiais", explica Oddone Marsiaj, instrutor de meditação e diretor do grupo budista Shambhala do Brasil.
O verdadeiro desapego é renunciar à cola que nos gruda a objetos, situações e pessoas.
"Podemos usufruir de tudo isso, mas sem grudar ou se deixar aprisionar", salienta.
Desapegar-se, portanto, não significa abdicar dos prazeres - ter uma casa nova, usar um belo vestido, saborear uma refeição deliciosa ou mesmo se apaixonar intensamente por alguém. "Podemos ter o que quisermos, mas sabendo que também podemos abrir mão de tudo, se necessário", explica ele.

Já o falso desapego, aquele que faz desistir da vida e dos outros, pode esconder um amargor profundo, um sentimento de impotência e injustiça.
"Nesse caso, o rótulo de desapego serve apenas como desculpa para encobrir dificuldades com a parte concreta da vida", continua o instrutor.
O raciocínio é simples: já que não consigo ter os bens que desejo, renuncio a tê-los.
"Ou melhor, penso que desisto", esclarece.
"Na verdade, o desejo continua existindo, só que reprimido, sufocado, gerando frustração", diz Oddone.

O falso desapego também pode ser usado como uma máscara para a arrogância.
Nesse caso, as pessoas se vangloriam de sua própria condição espiritual: se julgam desapegadas, como se fossem mártires.
Santo Agostinho (354-430), um dos maiores teólogos da Igreja Católica, afirmou que esse é um dos maiores pecados que podem existir - ele o chama de "o orgulho dos santos".
"Essa pretensa espiritualidade não passa de expressão do ego, de vaidade", frisa Oddone Marsiaj.
Pode até se transformar num instrumento para manipular e influenciar os outros.
O verdadeiro desapego é resultado da sabedoria, da compreensão do que é a vida.
Aprendemos, por meio dos ensinamentos espirituais ou pelas nossas próprias experiências, que tudo nesse mundo é impermanente, que as coisas sempre mudam e se transformam, e que ficar grudado a situações, pessoas, sentimentos ou hábitos torna-se apenas fonte de dor e angústia.
"Compreender e aplicar esse princípio à vida nos liberta", finaliza Oddone Marsiaj.

Oito passos para soltar as amarras

1. Medite em que situações você se sente preso, asfixiado.

2. Reconheça seu apego. Essa consciência é vital para a mudança.

3. Procure experimentar pequenas ações de desapego. Doe objetos, desista de uma mania, mude um de seus hábitos.

4. Desperte e interaja com o mundo. Participe de uma campanha de solidariedade, ajude quem está precisando em seu círculo de amigos.

5. Imagine-se livre de seu objeto de apego e sinta-se feliz por conquistar a liberdade. Prove essa sensação quantas vezes quiser. Ela abrirá caminho para suas futuras decisões.

6. Não tenha medo. Veja o que pode mudar em sua vida, sinta curiosidade por outras maneiras de viver.

7. Se necessário, procure ajuda nos grupos espirituais ou de apoio psicológico para tomar decisões importantes.

8. Medite. A meditação acalma a mente, e essa tranqüilidade é a base para livrar-se dos apegos.


São Francisco de Assis nos dá o exemplo

São Francisco de Assis (1182-1226) nasceu na Itália há mais de 800 anos e ainda hoje tem muito a nos ensinar sobre o desapego. Chamava-se Francisco Bernardone e nasceu numa família rica.
Aos 23 anos, optou pela pobreza, vestiu uma roupa feita de saco, amarrada na cintura por uma corda, e partiu.
Céu e estrelas eram seu teto, a grama molhada, sua cama.
Lobos e passarinhos eram seus amigos, e pobres, leprosos e desamparados, seus irmãos.
Viveu assim até os 44 anos e pouco antes de sua morte ainda advertia os frades que o acompanhavam:
"Não me chamem de santo porque posso abandonar tudo, casar e ter muitos filhos..." Mas não desistiu.
A opção de são Francisco pelo desapego radical foi testada todos os dias de sua vida.
Ele jamais esqueceu as delícias da cama quente, do abraço de uma mulher.
Ao se levantar, tinha diante de si sempre a mesma necessidade de optar pelo apego, com seu desejo incontrolável de manter tudo para si, ou pelo desapego, condição básica para compartilhar seu amor e ternura.
Francisco ficava sempre com a segunda alternativa, na maior alegria.
"A vida dos santos é como uma inspiração", diz o teólogo Jean-Yves Leloup no livro Terapeutas do Deserto (ed. Vozes).
Podemos nos espelhar em seus exemplos, tendo à frente nossos próprios dilemas e escolhas.
"Não nos será perguntado se fomos iguais a essas pessoas.
Mas nos será perguntado se fomos nós mesmos", complementa Leloup.
E acrescenta: "Não se pedem maçãs a uma ameixeira - pedem-se ameixas.
Cada um de nós tem de produzir os frutos de sua própria árvore".


Saborear a vida

Buda, mestre indiano que viveu há mais de 2,5 mil anos, conta uma bela história a respeito de nossa condição neste mundo.
Diz ele que um homem, ao sair de casa, foi perseguido por um tigre.
Correndo para salvar a vida, acabou na beira de um precipício.
Sem saída, saltou.
Conseguiu agarrar-se a um cipó que crescia por entre as pedras. Ficou assim, pendurado no abismo, quando percebeu que embaixo havia um tigre, esperando que ele caísse.
Ao mesmo tempo, dois ratinhos brancos começavam a roer o cipó que o segurava.
Nessa difícil situação, o homem viu dois morangos crescendo entre a folhagem.
Esticou um braço e provou as frutinhas, sentindo todo seu aroma e sabor.
Apesar de sua condição, pôde ainda exclamar:
"Mas que morangos deliciosos!"
Dizia Buda que somos como esse homem.
Estamos pendurados entre os tigres do nascimento e da morte, com ratinhos roendo nosso tempo de vida.
Mesmo assim podemos apreciar tudo o que se oferece nesse período precioso - sem querer que isso dure para sempre.
O desapego inclui também a curiosidade em conhecer e vivenciar todos os aspectos da vida - prazer e dor, alegria e tristeza, felicidade e infelicidade, ensina a monja budista americana Pema Chödron no livro Quando Tudo Se Desfaz (ed. Gryphus).
Não fugimos mais do que a vida tem para nos oferecer, recusamos a nos agarrar só ao que em nossa opinião é belo e bom.
"A dor pode ser a porta para experimentarmos uma felicidade maior e mais consciente", diz Pema.
E conclui: "Ao nos desapegarmos, reconhecemos, finalmente, que o controle não está em nossas mãos".

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