BOAS VINDAS

Seja bem vindo! Espero que aqui encontre alento, beleza, amor e paz! E que possa espalhar isto para o mundo, que vive tão sedento de tudo isto.



Pesquisar este blog

Seguidores

domingo, 7 de novembro de 2010

BELEZA E DOR


A chuva cai fininha. Adoro o seu tamborilar na janela! Chuva de “manga”, como dizia meu pai. (Devo explicar aos que moram longe da roça que “manga” aqui não é a fruta, mas o pasto do gado.).
Chuva para mim é sinônimo de vida, de explosão do verde, de flores se abrindo, vicejando e enfeitando os nossos campos. alecrins, bromélias, ipês, patas-de-vaca, orquídeas e mil outras espécies que vicejam no sertão.
Chuva é também o aconchego do lar, um bom livro, uma boa música... Principalmente aos domingos.
Hoje, porém, uma dor fina e profunda toma conta de meu peito: mais uma amiga partiu. Uma amiga tão linda, tão bondosa, tão inteligente, que conheci como minha aluna na antiga Fafil.
Os pensamentos e as lembranças tomam conta de mim. Caem como a chuva fina em meu coração. É dor, mas também é a alegria da vida. É um parto, mas é também a consciência plena da realidade.
Na Fafil formamos os melhores educadores de uma época e acho que ninguém vai discordar disso. Beth, com certeza, estava entre estes.
Nós, os primeiros professores, trabalhamos e estudamos como loucos. Ganhávamos uma miséria, mas isso não tinha importância para nós. Queríamos e sonhávamos com uma Universidade. Fazíamos projetos por longas horas em uma semana, sem ganhar um único tostão por isso. Lembro-me que uma vez cheguei a casa às três da manhã e meu marido ficou horrorizado. Uma mulher casada na rua até de madrugada!... É que eu dirigia um projeto e trabalhando muito não nos demos conta do avanço da hora.
E talvez o leitor se pergunte: o que tem a chuva e a morte da amiga a ver com tudo isso?
É que a chuva vai inundando a minha consciência com uma enxurrada de lembranças... E a morte da minha querida Beth Brant traz, juntamente com a dor, a saudade de um tempo duro, de “vacas magras”, em que todos nós, praticamente recém-saídos da adolescência, atrevíamo-nos a lecionar para universitários. Tempo difícil, em que, muitas vezes, trabalhávamos debaixo das goteiras de chuva, mas de tanta alegria e tanta compensação emocional. E Beth, assim como tantos de meus ex-alunos tornaram-se meus amigos queridos. Fui madrinha de todos eles e, como uma mãe, eu tenho me alegrado com o sucesso de cada um e tenho sofrido com suas tribulações e com a morte, que significa separação temporária mas é sempre dolorosa.
A cidade se tornou uma grande metrópole e as pessoas de hoje nem sabem que devem a nós, ao nosso trabalho e ao nosso desprendimento a Universidade Pública que hoje têm e onde seus filhos estudam e se formam. E, também, por ter se tornado esta megalópole, costumamos ter notícia da morte de entes queridos quando já estão enterrados.
Assim, não pude me despedir de Beth, como não tenho podido me despedir de tantos.
Mas, com a chuva a bater na janela, lembrando-me da beleza da Vida, despeço-me agora de Beth, a quem tanto amei, de meu primo, José Wilson, que, também, se foi no mesmo dia e de tantos outros que, enquanto eu viver, haverão de viver dentro de mim.
E lá, onde as flores têm mais cor, onde só existe o Bem, o Amor, a Justiça, e, com certeza, a música das esferas, os nossos queridos amigos nos esperam, pois todos nós um dia teremos que partir de volta ao nosso verdadeiro Lar.
Aqui deixo, junto à minha saudade, a gratidão pelo que foram e significaram na vida de cada um de nós.

Maria Luiza

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ALGUMAS DE MINHAS OBRAS

MEU MAIS NOVO LIVRO

MEU MAIS NOVO LIVRO