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domingo, 21 de novembro de 2010

TROPA DE ELITE II OU A TROPA DOS TRAFICANTES DE ELITE




Miguel Almir Lima de Araújo (DOUTOR EM fILOSOFIA E EDUCAÇÃO)

O filme Tropa de elite II, de José Padilha, tem a virtude principal de escancarar, de projetar em vastas dimensões, com a força penetrante da plasticidade inerente à linguagem cinematográfica, o tráfico que assola as elites dos poderes instituídos desse país, tanto o poder da instituição policial, como o poder das instituições políticas que deveriam cuidar com decência da coisa pública em cada instância administrativa (municipal, estadual e federal). Obviamente que existem algumas exceções.

É envergonhante para todos nós ser necessário tanto produzir, como assistir um filme dessa natureza. Isso nos dá muito o que pensar e sentir como seres pertencentes à chamada raça humana, com os tons peculiares de nosso espírito de bom senso.

O filme é bastante contundente ao descortinar, com a força expressiva de suas imagens, os lamaçais de corrupção que devastam as instituições públicas desse país brasílico, intensificando, assim, nosso estado de envergonhamento e de indignação diante de tanto cinismo e abuso. Nos interpela e provoca, nos espanta e arrepia; nos rasga de corpo e alma!

As imagens de Tropa de elite II traduzem, com desnudamento e irreverência, os artifícios das safadezas que perfazem os tráficos mais repugnantes realizados por quadrilhas de funcionários públicos que reduzem as instituições públicas a mercados/celeiros de corrupção.

As tropas do banditismo, tanto o oficial como o clandestino, tanto o policial como o político, se fundem, se mancomunam em redes de negociatas através do poderoso tráfico de drogas, de votos e de pessoas. Os pactos organizados dessa bandidagem usam e abusam das fragilidades da população que, assim, fica refém do poderio dessas tropas. Essa população, em grandes proporções, é forçada a se submeter, a se tornar conivente e cúmplice com os ditames das leis paralelas e clandestinas forjadas por essas elites traficantes, até para não perder a vida.

Nesse contexto, a vida e as relações humanas são mercantilizadas e barbarizadas nos porões do banditismo dessas organizações criminosas, das tropas abjetas que nutrem os monturos da corrupção, os mercados da criminalidade.

A polícia que deveria proteger os cidadãos e cidadãs, possibilitando-lhes segurança, se atola nas malhas dessas práticas terrorosas de violência e de criminalidade. As organizações criminosas, tanto as oficiais quanto as clandestinas, se dão as mãos convertendo bairros e favelas em campos minados que fomentam e instalam a violência, o mercado de drogas, de voto, de vidas humanas. Quando não se constitui como parceiro das poderosas organizações do crime organizado, o poder público, muitas vezes, tem ficado refém destas

Os bandidos da polícia, revestidos e protegidos (armados) com as máscaras dos fardamentos e símbolos oficiais do poder público, disfarçam a insanidade de suas atitudes com as estratégias e agenciamentos sofisticados de sua bandidagem. Bandidos travestidos de mocinhos agenciam, afirmam e fortalecem a indústria do crime sustentada pelo mercado da política que vilipendia os serviços e bens públicos, a lisura da coisa pública e de todo/a cidadão/ã. São forjados jogos de simulação e de dissimulação que, através das encenações mais astuciosas, escondem os lobos vestidos de ovelhas.

O filme também realça o estado de banalização, de espetacularização e de institucionalização da violência, tanto por parte de setores da população através dos grupos do crime organizado, como pela ação maculada da polícia, dos representantes dos poderes públicos. A indústria do crime é incrementada com muita voracidade e crueldade. Os seus algozes, sem nenhum pudor, torturam e matam fria e monstruosamente. A própria logomarca da polícia “Tropa de elite” – a caveira – traduz o teor dessas ações macabras.

Se não nos cuidamos, com muito afinco, somos despejados em estados de barbárie que esgarçam a dignidade e a sensatez de nossa condição humana. Estados que pretendem nos reduzir a monstros. Esses fatos confirmam a prevalência de uma razão cínica que nos envergonha, que desfigura e oblitera a Ética, o trato com a coisa pública; que, desse modo, pretende desgraçar a vida, as relações humanas, o planeta terra.

O que nos estarrece ainda mais é perceber a inflação crescente desse poder apodrecido das tropas dos traficantes de elite, de forma tão intensa e violenta, e, ao mesmo tempo, perceber que estas permanecem quase sempre impunes corroendo as instituições políticas, jurídicas, as teias da sociedade.

Parece que apenas a presença e a ação denunciadora dos meios de comunicação têm causado incômodo e temor aos protagonistas dessas organizações criminosas, desses traficantes de elite. Os jornalistas que desenvolvem trabalho sério e que buscam propagar essas aberrações são ameaçados e até assassinados como realça o filme. Isso confirma a relevância primordial do poder desses meios de comunicação na propagação da verdade dos fatos de interesse público, de tantas ações escusas que maculam nossa sociedade.

Se quisermos nos contrapor a essa atmosfera hedionda e defender os princípios éticos da decência e da dignidade, precisamos ousar ações inteligentes e sensíveis, ao menos nas esferas do micro (em suas implicações com o macro), em nossas localidades cotidianas, que primem pela defesa e pela afirmação dos valores que enobrecem a vida. Se ficarmos apáticos e omissos, mesmo que não desejemos, nos tornaremos cúmplices da barbárie.

Urge instalarmos tropas altaneiras e altruístas que defendam e afirmem, com nosso espírito humanista, ecohumanista, a dignidade e a justiça, a paz e a fraternidade. Do contrário, assim me parece, pereceremos todos nos estados cada vez mais generalizados dessa barbárie.

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