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quinta-feira, 24 de março de 2011

MENTIRAS




Quantas mentiras fazem uma vida? Quando eu era menino e corria de chuva, nem me lembro se as mentiras realmente eram, pois afinal, não tinha culpa de ser menino, e culpa era coisa de velhos. Não de idosos, entendem?

Aquelas mentiras não machucavam, e nem sequer enganavam a alma, que aliás, vivia escapando entre as frestas dos bambuzais e o barro vermelho que se estendia longe, bem longe... Tive privilégios? Sim, as coisas que transbordavam no brilhante charco dos meus olhos estavam no dia, e o dia era o espaço onde tudo acontecia. O dia jamais era um esboço. Não quero ficar lembrando, para não causar admoestação alguma ao espírito da época nem sequer entristecimentos nos corações das crianças de hoje.
Mentiras? Nada a ver com as fadas, os príncipes, os castelos, os aventureiros e as criaturas das florestas... Nada a ver com as ilusões das histórias que percorriam o meu crescimento.
Elas vieram depois...
Não sei quanto tempo alguém pode suportar as mentiras que aos poucos vão corroendo as forças do querer... E eu as recolhi, não entre os cascalhos dos meus pés descalços correndo no vento que levava a pipa na linha de um infinito carretel...
Meus olhos ainda estavam impregnados talvez de um carrossel, ou das páginas de nanquim de algum gibi, quando elas surgiram, primeiro de forma despretensiosa... Até que fui me dando conta.
As juras de amor se desfazem na frouxidão do cotidiano áspero e brusco. O riso forte e a gargalhada do homem mais justo se despedaçam na piada que menospreza e desvaloriza o outro. O grande magazine, que sente orgulho, mas arrebenta a crença em qualquer sentimento de justiça, ao remarcar preços de forma irreal e desprovida de bom senso.
No primeiro de Abril, as brincadeiras inocentes e bobas das crianças, que inventam mentiras apropriadas para o dia, nem de longe se aproximam das mentiras que nos contam diariamente, aquelas, como a mentira oficial, de vidas tragadas pela falta de poesia e de sinceridade. A minha alma sempre dói mais e se despetala, se desbota num processo mais vertiginoso e amargo, não pelo fato de estar poeta, mas por ter me entrelaçado desde cedo nas folhas dos eucaliptos.
Mentiras, tantas são: a tela azulada da TV, com seus programas ensinando aos jovens que a felicidade é desnecessária, basta a alegria, alegria frágil e nem sempre inócua.
Mentiras, que a escolaridade nos garantirá sempre um futuro promissor, assim como a religião nos tornará melhor, como se o melhor já não estivesse em cada um, adormecido, clamando num grito surdo e insondável pela urgência do despreendimento, aquele de varais e pardais em dias ensolarados e em ventanias sopradas pelos mais sinceros entardeceres.
Mentiras, que o racismo é coisa de livros escolares. Mentiras, que o artista, por ser artista, assim como o poeta e o escritor, são homens acima do bem e do mal, criaturas incapazes de fazerem o mal ao alheio; que a inveja não assola os seus corações...
Não é possível divagar nem trafegar de forma confortável no manancial de mentiras que aos poucos moldam o caráter e a alma de alguém, ou então, que ferem ou mancham de dores e hematomas os corações outrora límpidos e cristalinos.
"Eu sou a mentira! Possua-me! Quero ser fecundada diariamente!"... Sim, a mentira precisa ser alimentada, por isso muitos não lhe negam reforço e nutrientes. Basta observar a hipocrisia de uma sociedade que, convivendo com o ideal tecnológico que aos poucos substitui o pensamento humanista..., basta observar nessa sociedade os meninos desamparados, as meninas molestadas e violentadas em sua pureza, nos campos e nas cidades. Basta ver as propagandas enganosas de governantes e de partidos, basta ver as crianças que crescem num lodaçal de mentiras, não as que já enfeitaram outras infâncias. Essas são saudáveis, estão nas histórias mais belas que o espírito criou.
As mentiras em todas as suas ramificações, estão aí, caudalosas e enraizadas na alma contemporânea.
Quem lavar os olhos no riacho da poesia, quem sabe estará solicitando uma pausa, um momento, um retorno.
O tempo é cíclico, diriam. E então, quem sabe o momento seja o do retorno. Retorno para um tempo em que as verdades prevaleçam. Afinal, bem se disse: a verdade não tem jeito. Qualquer que seja ela. E lá está o barco no ancoradouro, esperando, em seu seguro cais, que alguém, com coração puro, possa chegar, feito criança...


MARCIANO VASQUES
(do blog Casa Azul da Literatura)

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