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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

AO MEU PAI



Quando nasci você tomou-me nos braços e sorriu o mais belo sorriso de felicidade. Quando comecei a andar você me deu a mão para que eu ensaiasse os primeiros passos e não caísse. Quando adoecia você passava a noite à beira de minha cama e eu dormia confiante porque minha mão estava na sua. Quando fui para o colégio interno você estava ao meu lado e enquanto eu apertava a sua mão, com medo daquele mundo desconhecido, você me mostrava as maravilhas do conhecimento.

Durante toda a minha infância, juntamente com meus irmãos, você nos divertia com as mágicas que inventava, fazia cavalinho, contava-nos histórias mirabolantes que nos faziam rir, chorar e nos levava a conhecer Bach, Beethowen, Chopin, Tchaikovski, Mozart, Wagner e tantos outros músicos que amava e nos ensinava a amar. Prometia sempre um prêmio para quem acertasse o autor, o nome da música, a sinfonia, a ária. Quando, bem cedo, comecei a brincar com as letras, a ajuntá-las e a escrever nos seus jornais, abriu-me o mundo encantado dos mil e um autores.

Quando me tornei moça você tinha ciúmes de todos os meus namorados e ninguém servia para mim, pois você sonhava em casar-me com um “príncipe”. Quando aquele que escolhi para companheiro esperava-me no altar, você me levou até ele.

A vida foi continuando e as nossas conversas, alegrias e tristezas pareciam não ter fim. O tempo sempre era muito pouco. Contava-nos “causos”, casos e histórias de sua terra natal e de figuras lendárias do norte de Minas. Ensinou-me a amar criaturas admiráveis que só conheci por fotografias.

Aprendi com você a História da França, da Inglaterra, de Roma, da Grécia, do Brasil. Foi você quem me contou as histórias da Bíblia e levou-me a amar Jesus Cristo, cuja vida estudou profundamente, pesquisou, escreveu, admirou e amou. Foi você que abriu-me o caminho da espiritualidade, alargando cada vez mais o meu mundo de luz. Com você aprendi a ética que norteou toda a minha vida: o amor, o respeito, a compaixão, a justiça.

Tudo o que me acontecia tinha pressa em lhe contar. Quando buscava conforto, nas agruras da vida que não me pouparam, buscava seu abraço e sua palavra consoladora. Quando me desesperei aos 38 anos porque, depois de tanto estudar, tanto ler, tanto pensar, tanto buscar, cheguei à conclusão que nada sabia e fui correndo ao seu encontro em busca de conselho, você me disse, com tranqüilidade: "Que bom, minha filha, agora você vai, realmente, aprender o caminho da sabedoria!"

Você foi meu pai, meu amigo, meu mestre, meu conselheiro, meu companheiro de todas as horas.

Depois, eu amadurecia e você envelhecia. E vieram os momentos terríveis em que sua saúde rateava e eu quase enlouquecia só de pensar que poderia perdê-lo. Mas Deus foi misericordioso e sua vida foi longa, bonita, desprendida, produtiva e brilhante. Você tinha estopim curto, era verdadeiro, honesto, sempre correto demais e as pessoas se enganavam quando não o conheciam, imaginando-o uma pessoa brava e truculenta. No entanto, era manso de coração, terno, bondoso e compassivo.

Começamos a inverter os papéis. Você que era a minha rocha, o meu porto, o meu cais, foi decaindo, se sentindo inseguro e buscava, então, refúgio em mim. Depois de algumas isquemias cerebrais você, que era mestre da palavra, deixou de falar. Mas, o amor imenso que nos unia sempre nos levava à compreensão.

Acompanhei-o, minuto por minuto, agonia por agonia, em seus últimos dias. Assisti você ir para a sala cirúrgica, tão tranqüilo. Chorei de felicidade ao saber que a cirurgia em seu cérebro tinha sido um sucesso. Mas, a esta alegria foram se seguindo os dias em que sua matéria já cansada, machucada, doída, ia cada vez mais enfraquecendo.

Ah, se eu pudesse teria sofrido aquele calvário em seu lugar! Mas, ali estava, com o meu amor, impotente, só podendo colocá-lo nos braços de nosso Pai Maior. Percebi os momentos em que você, finalmente, nos deixava e minh’alma tão sofrida já não suportava mais o seu sofrimento. Fui obrigada a pedir ao Pai que o levasse. Fui forte, sim, até quando a guarda dos militares, em posição de funeral, deram o primeiro tiro e as notas musicais do toque de silêncio soaram. Aí, meu pranto jorrou como sangue e a dor rompeu meu peito.

Você fez história e será lembrado como o comandante, o delegado, o escritor, o historiador, o prefeito, o jornalista combativo, o assessor direto de vários comandantes-gerais da Corporação que tanto amou; o assistente militar de Secretário de Estado, de Dom Armando Lombardi, o cônsul do Papa no Brasil nos idos dos anos 50; o intelectual cujo nome está inscrito em várias instituições. Para mim, entretanto, você será lembrado como o melhor dos pais, o mais apaixonado por seus seis filhos.

Você segue o seu caminho na eternidade, conforme a sua semeadura e a vontade do Criador e eu, sua filha terrena, até que chegue minha hora, viverei como uma parte sua, buscando sempre honrar todo o legado do Bem que deixou em sua trajetória pelo planeta.

A saudade será grande! O vazio será enorme! E a minha gratidão e o meu amor serão eternos!

Até breve, Papai!

Maria Luiza

Dezembro de 2005

Um comentário:

  1. Muito bonita toda a trajetória deste amor entre você e seu pai. Que fique gravado tudo o que foi bom e especialmente todo o elo de Amor que sempre haverá entre vocês. Um dia se reencontrarão, não mais no papel de Pai e filha, mas como almas amigas, com tamanha afinidade no amor, pela eternidade.
    Bom dia querida...beijos
    Valéria

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