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sábado, 5 de novembro de 2011

É BOM SER SEMELHANTE A DEUS?



Quando Deus criou o homem, plasmou-o do barro da terra e modelou-o conforme sua imagem e semelhança. Fez isso motivado pela plenitude do próprio ser e transbordamento de seu amor - como sugere Santo Agostinho? Ou por boa vontade, ousadia ou risco calculado? Ninguém sabe. Pouco importa.
O fato é que, da percepção que o homem foi elaborando de si mesmo, e que, em muitos casos, deriva de sua crença nas palavras bíblicas, decorrem supostas atribuições que têm pesado ao longo de sua história pessoal. Às vezes, nem sempre a seu favor. Quero destacar uma delas: a que o torna também criador, participante, portanto, deste atributo divino.
Este poder encantou o homem de tal maneira que, como criança ingênua e curiosa, começou a violar todas as caixas de Pandora, libertando muitos perigos antes desconhecidos, deixando-os soltos a ameaçar sua sobrevivência e a de seus semelhantes.
Inebriado, acreditou-se capaz de refazer o mistério da criação, sem, contudo, conseguir vislumbrar as conseqüências de sua ousadia, pois lhe falta a visão de conjunto. Esqueceu-se talvez de um detalhe, que faz a diferença: quando Deus cria, mantém-se inalterado em sua essência; quando o homem cria, modifica-se a sua constituição, como se algo lhe fosse arrancado. Sendo assim, estranhamente, passa a depender de sua criatura, muitas vezes até, idolatrando-a.
Não é o que acontece, quando gera um filho? Um filho é produto de uma cerrada teia de relações. E essa teia, só faz desenvolver-se com o tempo. E esse “criador-aprendiz-de-feiticeiro” se enreda com a criatura, confundindo-se com ela numa única e mesma trama.
O homem se deslumbra com suas criações, inclusive com as que fazem de si próprio. Vive admirando-se, como Narciso. Constrói sua existência, acreditando piamente nas idéias que forma a seu respeito. Assim, tudo o quer é acumular coisas e imagens, das quais, depois, não consegue se libertar. A literatura de ficção e principalmente o cinema têm abordado o tema de forma exaustiva. Quem nunca ouviu falar de O Médico e o Monstro, King Kong, o Retrato de Dorian Gray? Sem contar outros tipos de criação como os de natureza jurídica e social, que acabam por engessar os movimentos dos próprios criadores.
Bem diferente do verdadeiro criador que se conserva idêntico a si mesmo, em todas as circunstâncias: ele dá o primeiro impulso e deixa que a obra criada siga o seu caminho. O homem, ao contrário, apega-se às suas criações e vive acalentado pela agradável crença de que é muito especial na hierarquia dos seres. Em sua desmesurada ambição, sempre quis, ao longo dos séculos, mais e mais poderes para se igualar a Deus. A mitologia de alguns povos antigos mostra de maneira figurada e plástica a constante luta de homens e deuses, para suplantarem uns aos outros.
O termo semelhante é da família de assimilar ou assemelhar (=tornar semelhante, parecido, incorporar características, estilos, etc.). “Semelhante a”, portanto, diz-se de algo ou de alguém que tenha incorporado a si qualidades, atributos, formas, maneiras, modos de ser, de existir de outro, convertendo tudo isso em substância própria. Ser semelhante a Deus equivale, então, a dizer que o homem ao ser criado por ele, recebeu atributos que, antes, somente a ele pertenciam. Daí o homem passa a assimilá-los à sua constituição num processo de atualização constante. A rigor, o resultado desse processo é que o torna semelhante a Deus e não apenas, o ter recebido alguns atributos divinos, entre os quais o de criar.
Entretanto, ser semelhante a Deus neste particular poder de criar, implica conseqüências para nós:

 Construímos imagem própria e a projetamos;
 Produzimos coisas;
 Geramos descendência: como pais, filhos; como professores, alunos; como líderes, seguidores.

Por que nos preocupar com as nossas “criaturas”? Em primeiro lugar porque, se somos criadores como o nosso criador, temos de ser coerentes como a nossa matriz. Depois, porque tudo o que criamos passa a depender de nós e tem expectativas a nosso respeito. Se somos líderes, esperam clarividência, respeito e orientação. Se professores, ciência, e, mais que isso: o saber e os valores transitados na relação educativa. Se pais, segurança, afetividade, largueza de coração, franqueza no trato e presença constante. Se autoridade, o exemplo que arrasta, a retidão de conduta, a ética, a humildade, a paciência, a disponibilidade e a abertura para os outros.

Do que se vê, a conclusão é: ser semelhante a Deus pode ser bom, mas é duro e pesado. E é muito bom não nos vangloriarmos de algo que temos a certeza de possuir, mas sem saber exatamente por que, remetendo-nos sempre à dúvida inicial.


Valter de Araujo

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