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domingo, 9 de novembro de 2014

POEMA DA GRATIDÃO


É nesta hora truanesca
Neste crepúsculo de milênio
Quando as sombras se adensam e a revolta grassa
Nesta casa santuário, queremos dizer, Senhor!
Enquanto lá fora há o aturdimento e o desequilíbrio
Nós aqui queremos dizer-te que amamos a vida
Que para nós é bela e é consentida
Muito obrigado Senhor!
Pelo que me deste e pelo que me dás.
Muito obrigado pelo ar, pelo pão, pela paz.
Muito obrigado pela beleza que meus olhos vêm notar da natureza
Olhos que fitam o céu, a terra e o mar.
Que acompanham a ave ligeira que corre fagueira pelo céu de anil, e se detém na terra verde salpicada de flores em tonalidades mil.
Muito obrigado senhor porque eu posso ver meu amor
Mas diante de minha visão
Eu detecto cegos que tropeçam na escuridão
Que andam na multidão
E que choram na solidão
Por eles eu oro e a ti eu imploro comiseração
Porque eu sei
Que depois dessa lida na outra vida eles também enxergarão
Muito obrigado pelos ouvidos meus
Que me foram dados por Deus
Ouvidos que ouvem o tamborilar da chuva no telheiro
A melodia do vento nos ramos do salgueiro
As lágrimas que vertem os olhos do mundo inteiro
Ouvidos que ouvem a música do povo que desce do morro na praça a cantar
A melodia dos imortais, que a gente ouve uma vez e não esquece nunca mais.
A voz melodiosa, canora, melancólica do boiadeiro.
E a dor que geme e que chora no coração do mundo inteiro
Pela minha faculdade de ouvir, pelos surdos eu te quero pedir.
Porque eu sei
Que depois dessa dor, no teu reino de amor, voltarão a sentir.
Muito obrigado pela minha voz
Mas também pela sua voz
A voz que canta
Que alfabetiza, que ilumina
Que solfeja uma canção
Que legisla
Pela voz, que emite a melodia de sua própria voz.
Mas diante de minha melodia
Eu detecto na Terra os que sofrem de afazia
Eles não cantam de noite eles não falam de dia
Oro por eles
Porque eu sei, que depois desta prova, na vida nova.
Eles cantarão
Obrigado pelas minhas mãos
Mas também pelas mãos que aram
Que semeiam
Mãos que agasalham
Mãos de ternura
Mãos que libertam da amargura
Mãos que apertam mãos
Mãos dos adeuses
De caridade e de solidariedade
Mãos que escrevem poesias
Mãos de cirurgia
Mãos de sinfonia
Mãos de psicografia
Pelas mãos que atendem a velhice
A dor
O desamor
Pelas mãos que no seio embalam o corpo de um filho alheio sem receio
E pelos pés que me levam a andar, sem reclamar.
Muito obrigado senhor, porque eu posso caminhar.
Mas diante do meu corpo perfeito
Eu olho na Terra
E encontro
Paralisados, maltratados, amputados, marcados, deformados.
Eu oro por eles
Porque eu sei, que depois desta expiação.
Na outra reencarnação
Eles também bailarão
Obrigado por fim, pelo meu Lar.
É tão maravilhoso ter um lar
Não é importante se esse Lar é uma mansão, ou uma favela, uma tapera, um ninho, um grabato.
De dor, um bangalô, 
Seja lá o que for.
Mas que dentro dele, exista a figura do amor.
O amor de mãe, ou de pai.
De mulher ou de marido
De filho ou de irmão
A presença de um amigo
Alguém que nos dê a mão
Pelo menos a companhia de um cão
Porque é muito doloroso viver na solidão
Mas se eu a ninguém tiver para me amar
Nem um teto para me agasalhar, ou uma cama para repousar.
Nem aí reclamarei
Pelo contrário, eu cantarei.
Obrigado senhor porque eu nasci
Muito obrigado porque eu creio em ti
Pelo
teu amor, obrigado senhor!

Divaldo Pereira Franco

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