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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

LÁ VAI O TREM...


Há dias em que acordo, depois de uns cochilos na janela do mundo, cheio de vontade de dizer algumas palavras. Porém, em cada palavra que me vem à cabeça, mesmo as oxítonas, experimento a sensação de que já a falaram antes de mim. E olha que já vim ao mundo faz tempo. Este planeta envelheceu antes das pirâmides do Egito. Bem antes! E como um trem sem freios corre nos trilhos do tempo sem um apito sequer ao parar na estação da morte, onde alguns descem depois de vencido o percurso do bilhete que receberam quando embarcaram na estação do Limo, local indeterminado de onde Deus extraiu o barro para fazer o homem.

E lá vai o trem...

Sentado à janela, torço para que não sejamos os herdeiros dos últimos resfolegarem dessa locomotiva que Deus nos emprestou para essa viagem imprevisível. É a experiência do “Nada Sei”. Não sei onde embarquei, não sei a estação que desço, não sei para onde vai o trem, não sei onde terminam os trilhos. A única certeza que tenho é de que fui jogado num vagão, viajando com um bilhete de passagem onde está escrito: “Vou indo”. Olho para a paisagem, que passa por mim ao contrário, e tento decifrar o porquê de o trem correr ao avesso de todas as coisas. Para onde eu vou, tudo volta. A minha impressão é de que viajo para a estação do Nada, do Ninguém me esperando. As estações vão passando: Verão, Inverno, Primavera e Outono.

As estações são as mesmas, as palavras sempre iguais em todas as bocas. O mundo é filme de um enredo só com plateias diferentes. Insisto numa palavra que nunca foi pronunciada. Uma basta para que permaneça impressa, como um hieróglifo numa pedra, dizendo aos depois de mim: “Eu estive aqui”. Contudo, descubro, na vaidade da minha procura, que tal palavra não existe, e que o novo é um lugar do futuro distante, tão distante, que o presente não consegue ir. O futuro é ponto de referência para insuflar a alma do viajante, aliviá-lo do cansaço e não desencorajá-lo nos solavancos dos vagões.

E lá vai o trem com o seu vagão de bagagem entulhado de palavras velhas, saídas de bocas recém-embarcadas. E cada Ego falante imagina-se o descobridor da pólvora. Embora o passageiro só tenha uma boca, ela fala demais. Os ouvidos não escutam, os olhos estão turvos, a língua é a protagonista dessa velha era travestida de jovem, que tem a pretensão de ensinar falando o que nunca aprendeu lendo, experimentando ou ouvindo.

Lá vai o trem. A experiência e o estudo cederam lugar ao faz de conta, e a filosofia do achismo espalhou-se pelas bocas. Tudo que reluz é ouro. O silêncio morreu. As palavras loucas que flutuam na atmosfera emitem sons horrorosos e superam as partículas sólidas expelidas pelas chaminés das fábricas. Morre a alma, morre o corpo. E lá vai o trem. Alguém me toca no ombro, acordo, e ele me diz: “O senhor desce nesta estação”.
O que direi ao voltar para casa?

Félix

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